História de santo
São Carlo Acutis
Um adolescente com computador, tênis e mochila. E santo.
6 minutos
A narração desta história está sendo gravada.
Enquanto isso, o texto completo está aqui embaixo para você ler em voz alta.
Virtude de hoje
Amor à Eucaristia
Carlo mostra que santidade não é coisa de outro século. Ele teve as mesmas telas que a sua casa tem e escolheu, todo dia, o que ficava em primeiro lugar.
Vale reparar no detalhe que ele mesmo colocava no começo de tudo: não era o computador, era a missa. O resto vinha depois.
Para conversar
Se você pudesse mostrar uma coisa sobre Jesus para todo mundo do mundo ver, o que você ia mostrar?
Sem resposta certa. A ideia é ouvir o que seu filho pensa.
Oração
Jesus, obrigado por ficar perto de nós na missa.
Me ajude a não desperdiçar o meu dia.
Quero ser eu mesmo, do jeito que o Senhor me fez.
São Carlo Acutis, reze por nós.
Amém.
O texto da história
Eu tinha um tênis novo.
Branco. Meu. O primeiro da minha vida. Eu andava pelas calçadas de Milão desviando das poças como quem anda numa corda bamba. Milão fica do outro lado do mar, e lá o frio dói.
Naquele ano eu ia fazer a primeira comunhão, e por isso tinha catequese na quarta-feira. Uma hora inteirinha da minha vida, roubada.
Numa dessas quartas entrou na sala um adolescente de mochila e cabelo bagunçado. Falaram que ele ia ajudar a catequista. Chamava Carlo.
Eu pensei: pronto, agora vai ser chato e ainda vai ter dever.
Aí ele ligou o computador e passou um filme.
Não era filme de santo. Era o filme da cachorrinha dele.
A cachorrinha chamava Briciola, que quer dizer farelinho, e era do tamanho de um pãozinho. Numa viagem da família, a avó levou o farelinho escondido na bolsa. No meio do passeio ele começou a choramingar lá dentro, e a avó começou a tossir alto, sem parar, para ninguém escutar.
E o Carlo atrás, filmando tudo, com música de filme de aventura por cima.
A gente riu tanto que a catequista teve que bater palma.
O Carlo jogava bola com a gente no pátio. E era ruim. Ruim de doer: chutava e a bola saía pelo lado. Mas ia toda vez. Gostava de Nutella e queria ser cozinheiro.
Um dia um menino perguntou quanto tempo ele jogava videogame por semana. O Carlo só riu e foi buscar a bola. A mãe dele contou depois: mais ou menos uma hora. Uma hora numa semana inteira.
Mas tinha uma coisa nele que a gente não entendia.
Quase todo dia, antes da escola, o Carlo ia à missa. Antes da escola. Ninguém mandava.
E um dia, sem ninguém perguntar nada, ele falou assim: a Eucaristia é a minha autoestrada para o Céu.
Autoestrada. Que nem estrada de carro, mas para o Céu.
Eucaristia eu sabia o que era: aquele pedacinho branco que o padre dá na missa, que é Jesus. O resto eu não entendi. Missa não é estrada. Missa é lugar de ficar sentado.
Aí chegou o outono. Numa quarta a catequese acabou já de noite, e fazia aquele frio que dói dentro da orelha. Na porta da igreja dormia um homem, em cima de uns papelões. O Carlo passava ali quase toda noite e levava comida quente.
Naquela noite o homem estava sem sapato. Descalço, naquele frio.
O Carlo parou.
Não falou nada. Sentou no degrau da igreja, tirou o próprio tênis e entregou.
Depois foi embora para casa de meia, pisando na calçada molhada, até sumir na esquina.
Vou ser sincero com você: eu puxei os meus pés para trás, para o homem não ver o meu tênis branco. Depois eu fiquei com raiva. Não do homem: do Carlo. Porque, até ele fazer aquilo, o meu tênis era só um tênis.
Aí veio outubro.
Numa quarta-feira o Carlo não apareceu. Falaram que era gripe.
Não era gripe. Era leucemia, uma doença do sangue. Foram poucos dias no hospital. Lá ele deu a Deus toda aquela dor, de presente, para ajudar o Papa e a Igreja. E disse para a mãe que ia embora feliz, porque não tinha jogado fora nem um dia da vida dele.
O Carlo morreu no dia doze de outubro de dois mil e seis. Tinha quinze anos.
Na quarta-feira seguinte, a nossa sala ficou quieta de um jeito que sala de catequese não fica.
E naquela noite eu tirei o meu tênis e deixei ele do lado da cama, virado para mim. Fiquei olhando um tempão, no escuro.
Aí eu falei baixinho, para ele: eu não dei o meu.
Mas na quarta seguinte eu levei de casa a coberta do sofá, aquela de bolinha, e deixei na porta da igreja.
Não é tênis. Mas era minha.
No dia da minha primeira comunhão eu procurei o Carlo com os olhos, do jeito que a gente procura quem já foi embora. E lembrei que ele fazia aquilo quase todo dia.
O Carlo tinha pedido para ser enterrado em Assis, a cidade de São Francisco. E foi.
A Igreja levou anos conferindo tudo. Conferiu até a cura de um menino de quatro anos em Campo Grande, aqui no Brasil, que não conseguia comer sem passar mal e que, numa noite, comeu arroz, feijão, bife e batata frita e nunca mais passou mal.
Foi por causa daquele menino que a Igreja chamou o Carlo de beato, em Assis, em dois mil e vinte. Depois veio outra cura, longe daqui, e em setembro de dois mil e vinte e cinco a Igreja disse: esse rapaz é santo.
Eu fui a Assis ver. O túmulo dele tem fila de criança. E lá dentro está a roupa de todo dia, a mesma das ruas de Milão: calça jeans, blusa e tênis.
Boa noite.
História criada pelo Grãozinho
Inspirada na vida de São Carlo Acutis (Londres, 1991 — Monza, 2006), beatificado em Assis em 10 de outubro de 2020 e canonizado em 7 de setembro de 2025. Da vida dele são: a catequese que ele ajudava a dar na paróquia de Milão desde os doze anos, a missa quase todo dia antes da escola, os filminhos caseiros com a cachorrinha Briciola — inclusive a viagem da família a Lourdes com a cadelinha escondida na bolsa da avó, que tossia alto para disfarçar o choro dela —, o futebol ruim jogado assim mesmo, a Nutella, a vontade de ser cozinheiro, o pouco tempo de videogame (cerca de uma hora por semana, segundo o testemunho público da mãe, Antonia Salzano), a comida quente e o saco de dormir que ele levava com o próprio dinheiro a um homem que dormia na porta da igreja, e a noite em que tirou o próprio tênis e deu a um homem descalço, voltando para casa de meia — este último episódio é o testemunho de Rajesh Mohur, que trabalhava na casa da família e ia com ele à igreja. Também são da vida dele a leucemia, os poucos dias de hospital, a dor oferecida pelo Papa e pela Igreja, o que a mãe conta que ele disse sobre partir feliz por não ter desperdiçado a vida, a morte em 12 de outubro de 2006 aos quinze anos, o pedido para ser enterrado em Assis, a cura do menino Matheus Vianna, em Campo Grande, reconhecida pela Igreja e que levou à beatificação em 2020, a segunda cura reconhecida para a canonização — a de uma jovem ferida na cabeça num acidente de bicicleta, em Florença, em 2022 — e o túmulo em Assis, onde ele está com a roupa de todo dia: calça jeans, blusa e tênis. A única frase dita com as palavras dele é "a Eucaristia é a minha autoestrada para o Céu", que é como ela ficou conhecida e como a família dele a transmitiu. O menino de oito anos que narra foi inventado por nós: o tênis branco novo, a hora de catequese "roubada", a raiva depois da cena do degrau, os pés puxados para trás, o tênis do lado da cama, a frase "eu não dei o meu", a coberta do sofá deixada na porta da igreja, a primeira comunhão dele e a viagem a Assis já adulto. A catequese de quarta-feira, o dia em que Carlo passou o filme da cachorrinha para a turma e a pergunta sobre videogame são cenas nossas, montadas em cima de coisas que ele fazia de verdade e reunidas num ano só. No áudio inteiro, Carlo não diz nenhuma palavra que as fontes não registrem.
Fontes e revisão
Postulação da causa e biografia oficial de Carlo Acutis (1991-2006); testemunhos públicos da mãe, Antonia Salzano Acutis; exposição e site sobre os milagres eucarísticos, iniciativa do próprio Carlo; beatificação em Assis, 10 de outubro de 2020, decreto do milagre aprovado por Papa Francisco em fevereiro de 2020; canonização em 7 de setembro de 2025; Catecismo da Igreja Católica, 1324 e 1391-1397 (a Eucaristia, fonte e ápice da vida cristã); Catecismo da Igreja Católica, 2013 (vocação universal à santidade).
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