Grãozinho
Primeiras Histórias

História de santo

Santa Teresinha do Menino Jesus

Ela nunca fez nada grande. Fez coisas pequenas com amor enorme.

6 minutos

A narração desta história está sendo gravada.

Enquanto isso, o texto completo está aqui embaixo para você ler em voz alta.

Virtude de hoje

Amor nas coisas pequenas

O caminho pequeno é um alívio para pais cansados. Ele diz que a santidade não está guardada para quem faz feitos enormes, e sim para quem lava a louça de novo, com amor, à meia-noite.

A criança que ouve isso aprende cedo que não precisa ser a melhor da turma para agradar a Deus. Precisa fazer bem o que está na frente dela.

Para conversar

Qual coisa pequena e chata você pode fazer amanhã com muito capricho, só para dar de presente a Deus?

Sem resposta certa. A ideia é ouvir o que seu filho pensa.

Oração

Jesus, eu sou pequeno e não sei fazer coisas grandes.
Me ajude a fazer as coisas pequenas com muito amor.
Levante a minha vida como quem levanta uma criança no colo.
Santa Teresinha, reze por mim.
Amém.

O texto da história

Lá em casa, na França, tinha uma escada.

Eu não subia sozinha. De jeito nenhum.

Eu subia um degrau e gritava: mamãe! Lá da cozinha vinha um sim, filha. Aí eu subia mais um e gritava de novo: mamãe!

Um degrau, um mamãe. A escada inteira.

E se ninguém respondesse, eu ficava plantada no degrau feito estátua, até alguém vir me buscar.

Meu nome é Teresa. Em casa me chamavam de Teresinha. Meu pai consertava relógio, e eu era a caçula de cinco meninas.

Eu chorava. Por tudo, o dia inteiro, por qualquer coisinha.

E o pior: quando eu via que tinha chorado por bobagem, chorava de novo. Por ter chorado.

Quando eu tinha quatro anos e meio, a minha mãe morreu.

Naquele dia a Celina correu e pulou no colo da mais velha: então você vai ser a minha mãe.

Eu ia correr atrás e fazer igual.

Aí eu vi a Paulina, sozinha, do lado. Sem ninguém para ser filha dela.

E foi no colo da Paulina que eu escondi o rosto.

Depois a gente mudou de cidade. Na casa nova também tinha uma escada.

Essa ficou muito quieta.

Quem me pegava no colo agora era o meu pai. Ele me chamava de rainhazinha.

Mesmo assim eu chorava mais ainda. Isso durou anos.

Até uma noite de Natal, quando eu tinha treze.

Lá as crianças punham os sapatos na lareira, e de madrugada eles apareciam cheios de presente.

Eu tinha treze anos e ainda punha os meus. Uma moça crescida, ajoelhada na lareira, arrumando sapatinho. O meu pai adorava aquilo.

Naquela noite, na volta da missa, eu subia a escada quando ouvi o meu pai dizer, cansado: isso já é coisa de criança pequena. Espero que seja o último ano.

Eu parei no meio da escada. Como sempre.

A minha garganta fechou. Eu já sabia: ia descer chorando, e o meu pai ia ver.

A Celina veio atrás e cochichou: não desce agora, você vai chorar na frente do papai.

Ela tinha razão. Ela me conhecia.

Fiquei ali segurando o corrimão.

Aí eu engoli. Engoli mesmo, feito quem engole remédio.

Virei. E desci.

Ajoelhei na lareira e sacudi os sapatos de cabeça para baixo, gritando a cada coisa que caía. Feito rainha.

O meu pai riu junto.

Naquela noite a fonte das minhas lágrimas secou. E não fui eu que sequei: eu tinha tentado a vida inteira e nunca consegui.

Dali em diante eu queria uma coisa só: entrar no convento onde duas irmãs minhas moravam, e rezar por gente que eu nunca ia conhecer.

Eu tinha quatorze anos, e ninguém deixava. Fui até Roma pedir ao Papa, e ele respondeu: você vai entrar, se for a vontade de Deus.

Só que eu não saí: dois guardas tiveram que me carregar para fora.

Entrei com quinze anos.

Lá dentro não acontecia nada. Rezar, varrer, lavar, comer, rezar de novo. Todo dia igual.

Eu queria atravessar o mundo para contar de Jesus a quem nunca tinha ouvido falar dele. E estava lavando lenço numa bacia de água fria.

Na minha frente, uma irmã batia a roupa e jogava água suja na minha cara. Sem perceber. De novo. E de novo.

A minha mão subiu para limpar o rosto com cara feia, para ela ver.

Parei a mão no meio do caminho. E abaixei.

Fiquei ali fazendo força para gostar. Força mesmo, feito quem empurra armário sozinha.

Meia hora depois eu tinha gostado de verdade. E resolvi voltar ali sempre que desse.

Era isso a minha vida inteira. Isso.

Tem gente que chega perto de Deus subindo uma escada altíssima, um degrau de cada vez. Eu olhei para ela e já sabia: essa eu não subo. Sou pequena demais.

Naquele tempo tinha uma máquina nova, o elevador: você entra e ela sobe com você. Eu quis o meu.

Procurei na Bíblia, de noite. Não achei. Procurei de novo. E achei: se alguém é bem pequenininho, que venha a mim.

O meu elevador são os teus braços, Jesus.

Uma freira mais nova me disse que estava cansada de tentar e não subir. Eu falei assim para ela:

Pensa num bebê que ainda não sabe andar. Ele está no pé da escada, e a mãe está lá em cima.

Ele levanta o pezinho para o primeiro degrau, e não sobe. Levanta de novo, e não sobe.

E a mãe, lá de cima, uma hora não aguenta: desce a escada inteira, pega o bebê no colo e leva.

Deus é assim.

O bebê não precisa subir.

O bebê precisa levantar o pé.

Eu nunca subi sozinha a escada da minha casa.

Quando eu era pequenininha, eu parava em cada degrau e chamava.

Hoje eu não chamo mais. Eu só levanto o pé, no escuro, e espero.

Ele desce.

Boa noite.

História criada pelo Grãozinho

Inspirada em História de uma Alma, o caderno que a própria Santa Teresinha escreveu nos últimos anos de vida, entre os vinte e dois e os vinte e quatro anos. A história é dela; as palavras em português são nossas, e ela é contada em voz alta como se fosse ela falando com a criança. Vêm do caderno dela e das cartas da mãe dela: a escada que ela não subia sozinha, parando em cada degrau para chamar "mamãe!" e esperar o "sim, filha"; o pai relojoeiro que a chamava de rainhazinha; as cinco irmãs; o choro por qualquer coisa e a frase "eu chorava por ter chorado"; a morte da mãe quando ela tinha quatro anos e meio, e a mudança da família para outra cidade poucos meses depois; o dia do enterro, quando Celina escolheu a irmã mais velha e Teresinha escolheu a Paulina; a noite de Natal de 1886, com os sapatos na lareira, a frase do pai sobre ser o último ano, o cochicho de Celina na escada e a menina descendo rindo — "a fonte das minhas lágrimas secou"; o pedido ao Papa Leão XIII em Roma, em 1887, e os guardas que tiveram de tirá-la de lá; a resposta do Papa, "você vai entrar, se for a vontade de Deus"; a entrada no Carmelo aos quinze anos; a irmã do lavadouro que jogava água suja no rosto dela, e a decisão dela de gostar e de voltar ali; o elevador, que naquele tempo estava começando a aparecer nas casas de gente rica, e a descoberta de que o elevador dela eram os braços de Jesus; e a imagem do bebê no pé da escada, que ela deu a uma freira mais nova que estava desanimada. Imaginamos por nossa conta o modo de contar: costurar a vida inteira dela em torno de uma escada só — as escadas de que ela fala são de duas casas diferentes —, o silêncio da casa depois que a mãe morreu, a noite procurando na Bíblia, e a menina no escuro levantando o pé antes de dormir. Não pusemos na boca dela, do pai ou do Papa nenhuma frase que a fonte não registre, e nenhuma data, lugar ou milagre foi inventado.

Fontes e revisão

Santa Teresa de Lisieux, História de uma Alma (Manuscritos A, B e C), incluindo a graça da noite de Natal de 1886, o pedido ao Papa Leão XIII em novembro de 1887, a imagem do elevador, a irmã do lavadouro e o cuidado com a irmã idosa do refeitório; Últimas Conversas (Novissima Verba) para a promessa de fazer o bem na terra; Pio XI, canonização em 1925 e proclamação como padroeira das missões em 1927; São João Paulo II, carta apostólica Divini Amoris Scientia, 1997 (doutora da Igreja); Martirológio Romano, 1 de outubro.

Escrevemos com fontes à vista e revisamos com gente antes de publicar. Achou um erro de doutrina ou de história? Conte para a gente — a gente corrige e agradece.

Podemos medir como o site é usado? Isso usa serviços de fora. O site funciona igual se você recusar. O que é cada coisa.