Grãozinho
Primeiras Histórias

História de santo

Nossa Senhora Aparecida

Ela chegou ao Brasil dentro de uma rede de pescar.

5 minutos

A narração desta história está sendo gravada.

Enquanto isso, o texto completo está aqui embaixo para você ler em voz alta.

Virtude de hoje

Confiança de filho

Aparecida chegou quebrada, escura e pequena, na rede de três homens que estavam tendo um dia ruim no trabalho. É uma história de gente comum, e é por isso que o Brasil se reconhece nela.

Vale dizer à criança, com clareza, que a imagem é de barro e que a oração vai a Maria, e que Maria leva tudo a Jesus. Isso resolve cedo uma confusão que muita gente carrega a vida toda.

Para conversar

O que você ia querer contar para Nossa Senhora se ela estivesse sentada aí na sua cama agora?

Sem resposta certa. A ideia é ouvir o que seu filho pensa.

Oração

Nossa Senhora Aparecida, obrigado por cuidar do Brasil.
Cuida da minha casa e de todo mundo que mora aqui.
Leva o meu pedido para Jesus, o seu filho.
Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós.
Amém.

O texto da história

Esta história aconteceu em outubro de 1717, no rio Paraíba do Sul. Ela foi contada de boca em boca por muito tempo, e só uns quarenta anos depois um padre sentou e escreveu tudo num caderno. É desse caderno que ela chegou até nós.

Era o fim da tarde. Três homens estavam numa canoa. Domingos, João e Filipe. Eram pescadores de Guaratinguetá, no interior de São Paulo, e já estavam há horas jogando a rede na água.

E não vinha nada. Nem um peixe.

Eles precisavam pescar. O governador da região ia passar pela cidade, e os pescadores tinham sido chamados para ajudar a preparar a comida. Voltar de mãos vazias não era uma opção boa.

Já estava ficando tarde quando João jogou a rede mais uma vez, num lugar do rio chamado porto de Itaguaçu.

Puxou. Pesado.

Mas não era peixe. Preso na rede vinha o corpo de uma imagem pequena de Nossa Senhora, de barro escuro. Sem a cabeça.

Os três olharam aquilo em silêncio. E jogaram a rede de novo, no mesmo lugar.

Dessa vez veio a cabeça.

Os homens juntaram as duas partes, embrulharam a imagem num pano e guardaram na canoa. Depois voltaram a pescar.

E aí, conta o relato, a rede começou a encher. Tanto peixe que eles ficaram com medo de a canoa afundar.

A imagem era de Nossa Senhora da Conceição, com as mãos juntas e o rosto baixo, mais ou menos do tamanho de um antebraço. Alguém tinha modelado aquilo em barro muitos anos antes, e até hoje ninguém sabe ao certo quem foi nem como ela foi parar no fundo do rio.

Filipe Pedroso levou a imagem para casa. E foi ali, numa casa simples de pescador, que a história começou de verdade.

Os vizinhos vinham rezar. Depois vinham os vizinhos dos vizinhos. Vinham no fim do dia, com vela na mão. A família montou um altar de madeira. Depois um oratório maior. Depois já não cabia mais gente.

Uns anos depois construíram uma capela. Depois uma igreja. Depois uma igreja maior. E hoje, no lugar onde tudo isso aconteceu, existe o maior santuário dedicado a Nossa Senhora no mundo inteiro, e milhões de pessoas passam por lá todo ano.

Como ela apareceu no rio daquele jeito, o povo começou a chamá-la de Aparecida. E o nome ficou.

Agora escute uma coisa importante.

A imagem é feita de barro. Barro é barro. A gente não reza para o barro.

Quando você olha para uma foto da sua avó, você não conversa com o papel. Você lembra dela, e o seu coração vai até ela. Com a imagem de Aparecida é assim: a gente olha, e o coração vai até Nossa Senhora.

Adorar, a gente adora só a Deus. A Nossa Senhora a gente pede que reze por nós. E ela leva tudo o que a gente diz direto para Jesus, que é o filho dela.

Ela sempre faz isso. Maria nunca fica com nada para ela. Maria aponta para Jesus.

Tem outra coisa bonita nessa história.

Aparecida chegou pequena, quebrada e escura, puxada do fundo de um rio, na rede de três homens pobres que estavam tendo um dia ruim no trabalho.

Ela não chegou num palácio. Chegou numa canoa.

Por isso o Brasil inteiro se reconhece nela. O pescador se reconhece. A mãe cansada se reconhece. O menino que quebrou uma coisa e acha que não tem mais conserto também se reconhece.

Em 1930, a Igreja declarou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil. O dia dela é 12 de outubro, e é feriado no país inteiro.

Se um dia você for até lá, vai ver uma fila enorme e gente de todo canto. Gente de muleta. Gente com bebê no colo. Gente rezando alto. Gente só chorando quieta.

Todo mundo levando alguma coisa para uma mãe.

Hoje, antes de dormir, você também pode levar. Não precisa de fila. Não precisa de viagem.

É só falar com ela daí de onde você está.

História criada pelo Grãozinho

Inspirada no achado da imagem de Nossa Senhora Aparecida, em outubro de 1717, no rio Paraíba do Sul, perto de Guaratinguetá, no interior de São Paulo. Não existe documento da época. O registro mais antigo é de 1743, do padre José Alves Vilela, no Livro de Tombo da paróquia de Santo Antônio de Guaratinguetá; o mais detalhado é o manuscrito do padre João de Morais e Aguiar, de 1757. Os dois puseram no papel o que o povo contava de boca em boca. Do relato são: os três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso; o dia inteiro de rede vazia; o peixe pedido para a passagem do governador da capitania, o conde de Assumar; o porto de Itaguaçu, rio abaixo, onde eles foram parar; o corpo da imagem vindo primeiro na rede e a cabeça depois, um pouco mais abaixo no rio — o texto de 1743 diz "lançando mais abaixo outra vez a rede tirou a cabeça"; a pesca farta que veio em seguida; a imagem de barro de Nossa Senhora da Conceição, escura, pequena, do tamanho de um antebraço; a cera que uniu a cabeça ao corpo, atribuída a Silvana da Rocha, mulher de Domingos Garcia; o rosário rezado aos sábados na casa de Filipe Pedroso; os quinze anos em que a imagem ficou naquela casa; e o nome Aparecida, que quem deu foi o povo. A pesca farta é a parte que a tradição conta, não um fato documentado — e o áudio avisa isso antes de contá-la ("agora vem a parte que o meu pai conta até hoje, do jeito que todo mundo conta"). O menino que narra não aparece em documento nenhum: nós o imaginamos como um filho de Filipe Pedroso. Também imaginamos a pedra na beira do rio, os mosquitos, o medo que ele sentiu da imagem sem cabeça, a vontade de jogar aquilo de volta na água, a raiva de perder o canto onde dormia, o lugar que ele acaba cedendo, a conversa com a mãe e a bolinha de cera na mão. Nada disso está escrito — e nada disso muda o que está. Nossa Senhora não diz nenhuma palavra na faixa, e nenhum milagre é afirmado.

Fontes e revisão

Relato manuscrito de Frei João de Morais e Aguiar, 1757, primeira narrativa escrita do achado de 1717 por Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso no porto de Itaguaçu, rio Paraíba do Sul; imagem em terracota de Nossa Senhora da Conceição, cerca de 40 cm, conservada no Santuário Nacional de Aparecida; Pio XI, proclamação de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, 1930; consagração da Basílica Nova por São João Paulo II em 4 de julho de 1980; Lei federal que tornou o 12 de outubro feriado nacional, 1980; Catecismo da Igreja Católica, 971 e 2132 (a veneração das imagens sagradas se dirige à pessoa representada, não à matéria); Catecismo da Igreja Católica, 487 e 2674 (a fé sobre Maria remete a Cristo; a oração a Maria conduz a Jesus).

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